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Proteção a prestação: blindados mais perto da classe média
- Considerada até o início da década um luxo para poucos, a blindagem de veículos finalmente chegou à classe média. Se no passado o serviço se restringia a milionários e era uma exclusividade de carros top, hoje já é possível blindar carros comuns a preços menos salgados e pagar a conta em prestações. Além das facilidades de pagamento, o fenômeno é atribuído ao aumento do poder aquisitivo da população e, principalmente, à escalada da violência urbana no Brasil.
O novo cenário expressa-se em números. De 1999 a 2009, segundo a Associação Brasileira de Blindagens (Abrablin), a quantidade de automóveis protegidos circulando no país aumentou 177,3% – enquanto a frota cresceu apenas 83,6%.
Por trás de mais da metade desse percentual, estima o vice-presidente da entidade, Rogério Garrubbo, não estão titulares de contas bancárias estratosféricas. Pelo contrário.
– Seria exagero dizer que os blindados viraram itens populares, mas com certeza se tornaram realidade para muita gente que pensava que esse tipo de proteção só era possível para ricos – afirma Garrubbo.
Um dos precursores do setor no Rio Grande do Sul, o empresário Abdo Jamal, de Novo Hamburgo, é testemunha da evolução. Dono da Security Car Blindagens, em funcionamento na cidade desde 1999, Jamal conta que, no início, chegou a ser chamado de louco por abrir um negócio “para poucos”.
Passados 10 anos, perdeu a conta de quantos Palio e Gol já blindou. Entre seus clientes, agora estão pequenos e médios empresários, médicos e advogados.
– O medo de assaltos aumentou muito, e ninguém mais se sente seguro. A blindagem passou a ser um sonho comum entre famílias de classe média, inclusive no Interior – diz Jamal, que entre seus clientes tem também plantadores de soja.
Mas a explicação para o fenômeno não termina aí. O controle da inflação e a estabilidade do dólar em patamares relativamente baixos permitiram uma redução de preços. Em 1999, a blindagem mais usada, resistente a tiros de submetralhadora 9mm, saía por cerca de US$ 30 mil (cerca de R$ 55 mil), segundo Jamal. Hoje, o empresário afirma que o serviço é feito por US$ 20 mil (cerca de R$ 35 mil), sendo que já existem opções mais baratas no mercado – porém, com nível de proteção menor.
Outro fator importante é o avanço da tecnologia. Passou a ser possível proteger carros menos potentes – e consequentemente mais baratos – porque as tradicionais chapas de aço deram lugar a materiais mais leves, como as mantas de fibra de aramida, usadas em coletes à prova de balas. Com isso, deixou de ser raridade blindar modelos 1.6.
Para completar, aumentou a capacidade de consumo da população, ficou mais fácil comprar carro e as blindadoras ampliaram as formas de pagamento. Em Porto Alegre, por exemplo, a Piquet Blindagens Especiais permite que seus clientes parcelem o serviço em até 10 vezes sem juros. A estratégia, segundo o proprietário, João Sant’Anna, está dando resultados.
Basta uma caminhada pela oficina da empresa, no bairro Navegantes, para confirmar a tendência. Na quarta-feira, 10 carros eram blindados ao mesmo tempo no espaço, onde profissionais altamente especializados revestiam latarias com a precisão de cirurgiões. Entre eles, estava uma Saveiro. A pickup zero-quilômetro foi financiada por um administrador de 48 anos, que pede para ter o nome preservado.
Ele vive em Viamão, na Região Metropolitana, ganha cerca de R$ 10 mil por mês e decidiu comprar o utilitário para o filho, um universitário de 20 anos. Com medo da violência, procurou a blindadora disposto a negociar. Fechou o contrato em R$ 35 mil e parcelou o valor em 10 prestações:
– Como ficou mais acessível, vale a pena investir. A violência está demais. Não dá mais para arriscar.
Quem já passou por um assalto violento, em geral, pensa da mesma forma. Tornaram-se corriqueiros os casos, segundo Jamal e Sant’Anna, de gaúchos que, depois de sentirem na pele a dor de um tiro, decidiram apertar o orçamento para poder blindar seus carros. Pessoas que jamais investiriam nisso, se não tivessem sofrido o trauma. Não por menos, representantes e investidores do setor apostam que esse tipo de cliente se tornará cada vez mais comum daqui para frente. Pelo menos enquanto roubos e assassinatos continuarem estampando as manchetes dos jornais. Fonte: Zero Hora
